1. Introdução
O presente estudo foi extraído e adaptado do livro “Um Caminho Melhor”, de Michael Horton, capítulo 8, editora Cultura Cristã, 2024, 228 páginas. Disponível para se adquirido em: https://www.editoraculturacrista.com.br/um-caminho-melhor
O objetivo é entender como
nossa compreensão sobre escatologia influencia nossa forma de culto. Mas isso
não significa pensar apenas nas coisas que ainda acontecerão, mas também nas
coisas que já aconteceram e que estão acontecendo agora.
Escatologia não é apenas
uma doutrina sobre as últimas coisas, mas também sobre a realidade presente do
povo de Deus à luz da consumação futura estabelecida em Cristo. O futuro
prometido por Deus já começou a acontecer no presente por meio da ressurreição
de Cristo e da presença do Espírito Santo.
Em síntese: o que cremos e como vivemos molda o culto que prestamos.
2. Vivendo entre duas eras: “já-e-ainda-não”
Para entendermos esse
assunto, é necessário entender quem somos e qual é a nossa esperança. O que
significa ser cristão? Qual a esperança dos cristãos? Os cristãos esperam pelo
quê?
¹⁴Depois
de João ter sido preso, foi Jesus para a Galileia, pregando o evangelho de
Deus, ¹⁵dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo;
arrependei-vos e crede no evangelho. Marcos 1:14,15
Ao se encarnar, anunciar e
realizar sua obra redentora, especialmente por sua morte, ressurreição,
ascensão e envio do Espírito Santo, o Senhor Jesus inaugurou na terra o seu
Reino.
⁵Tende
em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, ⁶pois ele,
subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus;
⁷antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em
semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, ⁸a si mesmo se humilhou,
tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. ⁹Pelo que também Deus o
exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, ¹⁰para que
ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra,
¹¹e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.
Filipenses 2:5-11
Jesus Cristo reina hoje, e
já nos abençoou de muitas maneiras: fomos justificados (Rm 5.1), somos filhos
de Deus (Jo 1.12), recebemos o Espírito (Ef 1.13), pertencemos ao Reino (Cl
1.13), temos vida eterna (Jo 5.24).
⁴É
impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom
celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, ⁵e provaram a boa
palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, ⁶e caíram, sim, é
impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão
crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia. Hebreus
6:4-6
Não cabe entrar na
discussão sobre a natureza dessa advertência, pois o foco aqui não é discutir a
natureza da apostasia, mas observar que o autor reconhece que existem
realidades do mundo vindouro que já são experimentadas no presente.
Por outro lado, ainda
aguardamos o cumprimento de promessas que se cumprirão na vinda gloriosa do
Senhor Jesus: a vitória final sobre todos os inimigos de Cristo (1Co 15.20-26),
a glorificação do corpo (Rm 8.23), os novos céus e a nova terra (Ap 21.1), a
vida eterna com Cristo (Ap 21.6).
“Os
crentes já estão assegurados de que pertencem ao mundo vindouro – já e aqui,
pois a ressurreição de Cristo é o começo da nossa própria ressurreição. Essa
nova vida começa dentro de nós, levantando-nos da morte espiritual e, então, há
de nos resgatar da morte física quando formos ressuscitados no último dia. Na
ressurreição de Cristo, reconhecemos o primeiro dia do século vindouro, e somos
habilitados para discernir a qualidade e o tipo de obras que nos caracterizarão
quando a época futura se manifestar plenamente”[1].
(...)
Essa
escatologia do “já-e-ainda-não”, portanto, considera o crente, na presente
época, como um peregrino sob a cruz, caminhando para a Terra prometida. Antes
da conversão, ele era um transgressor em vez de um peregrino, vivendo em estado
de pecado. Agora, ele está no estado de graça, aguardando o estado de glória”[2].
3. contraste entre as escatologias
A Palavra de Deus nos
ensina que os cristãos vivem o “já-e-ainda-não”, ou seja, já participam dos
benefícios de serem filhos de Deus e cidadãos do Seu Reino, mas ainda não de
forma completa e eterna.
Entretanto, muitos
cristãos têm abraçado entendimentos equivocados a respeito de quem somos e do
que esperamos em Cristo, ou seja, a respeito da escatologia, e esses
entendimentos equivocados moldam sua forma de viver e de cultuar a Deus como
comunidade.
3.1. Escatologia
super-realizada
Em uma escatologia super-realizada,
o crente considera que todas as promessas feitas por Cristo já foram cumpridas.
O crente “antecipa” bênçãos que Deus prometeu na consumação do Seu Reino, ou
seja, ele “traz o futuro para o presente” além do que as Escrituras apresentam.
O crente que acredita
nessa ideia tem o objetivo de experimentar constantemente vitórias em todas as
circunstâncias da vida: curas físicas, prosperidade material, sucesso na
carreira, experiências sobrenaturais rotineiras. O crente vive “de glória em
glória”, de “vitória em vitória”.
Esse entendimento é
amparado pela compreensão totalmente equivocada de textos bíblicos como esses:
¹³O
Senhor te porá por cabeça e não por cauda; e só estarás em cima e não debaixo,
se obedeceres aos mandamentos do Senhor, teu Deus, que hoje te ordeno, para os
guardar e cumprir. Deuteronômio 28:13
²⁸Sabemos
que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que
são chamados segundo o seu propósito. (...) ³⁷Em todas estas coisas, porém,
somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Romanos 8:28,37
A missão da igreja passa a
ser compreendida como “redimir a cultura” como forma de antecipar a
manifestação plena do Reino de Deus
3.2. Escatologia
sub-realizada
No extremo oposto, em uma
escatologia sub-realizada, o crente considera que todas as promessas feitas por
Cristo somente serão cumpridas quando da Sua segunda vinda. O crente “prorroga
para o céu” bênçãos que Deus já nos deu, ou seja, ele “leva o presente para o futuro”
além do que as Escrituras apresentam.
O crente que acredita
nessa ideia vive apenas “suportando” as adversidades e os desafios desse mundo,
na crença de que “no céu será melhor”.
É possível identificar
traços dessa escatologia equivocada em expressões como “O mundo só vai piorar
mesmo”, “O importante é salvar almas para o céu”, “Nossa tarefa é suportar essa
vida, pois no céu seremos recompensados”.
Esse entendimento é
amparado pela compreensão totalmente equivocada de textos bíblicos como esses:
³⁶Respondeu
Jesus: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus
ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus;
mas agora o meu reino não é daqui. João 18:36
²⁰Pois
a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor
Jesus Cristo, ²¹o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual
ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até
subordinar a si todas as coisas. Filipenses 3:20,21
O crente vive como se
estivesse derrotado, aguardando seu completo escape do presente mundo.
4. Como essas escatologias moldam nossa forma de culto
Até aqui, vimos que
existem três formas de compreender quem somos e o que esperamos em Cristo, ou
seja, três formas de escatologia: escatologia do “já-e-ainda-não”, escatologia
super-realizada e escatologia sub-realizada.
Essas três formas de
escatologia influenciam diretamente a forma como prestamos nosso culto público
a Deus.
A escatologia
super-realizada tende a produzir uma religião essencialmente visual,
fundamentada na intensidade da experiência produzida e sentida por cada crente.
Quanto mais as pessoas “sentem” a presença de Deus, melhor é o culto.
O culto é preparado como
antecipação da consumação do Reino, e os crentes vão ao culto com o objetivo de
sentir a presença, o toque de Deus, de forma intensa, como uma experiência da
glória consumada. Não existe expectativa pelo cumprimento de promessas futuras,
todas as promessas são cumpridas no culto, aqui e agora.
O bezerro de ouro (Ex 32.1-10)
é um exemplo marcante desse tipo de culto visual e experiencial.
Como o objetivo é obter
essa experiência intensa com Deus, as músicas são pensadas com o propósito de
criar uma atmosfera capaz de produzir a sensação da presença de Deus, como se a
intensidade da experiência humana fosse o elemento determinante para a
manifestação divina.
As letras das músicas
focam em experiências pessoais, em vitórias sobre o pecado e em comprovações da
fidelidade do crente para com Deus. Em resumo, o foco está no “eu”, e não na
glória de Deus.
O problema não é a
presença da experiência pessoal no culto, pois os próprios Salmos expressam a
relação pessoal do crente com Deus. O problema ocorre quando a experiência do
adorador se torna o centro da adoração, substituindo a glória de Deus revelada em
sua Palavra.
A marca dos crentes da
escatologia super-realizada é a “conquista”. “Eu preciso ir ao culto para tomar
posse das bênçãos que Deus tem para mim”.
No outro extremo, a
escatologia sub-realizada é uma espiritualidade empobrecida da graça, onde o
culto se torna apenas uma rotina requerida por um Deus percebido como distante,
que, algum dia, voltará para resgatar o crente desse mundo de horror.
O culto se torna um lugar
apenas voltado para o cristão aprender lições morais, sobre como suportar as
angústias desse mundo, como se comportar bem diante desse mundo ruim, esperando
seu resgate final.
A participação nos
sacramentos pode ser reduzida a um mero memorial de acontecimentos passados,
perdendo sua dimensão presente como meios pelos quais Cristo fortalece
espiritualmente seu povo.
As músicas em um culto de
escatologia sub-realizada focam no lamento por viver em um mundo mau, na
esperança de escapar desse mundo e ir para o céu, na esperança de um dia sermos
recebidos por Cristo.
O crente em um culto com
escatologia sub-realizada parece indiferente à presença de Deus.
A marca dos crentes da
escatologia sub-realizada é a “sobrevivência”. “Hoje não fui ao culto, mas, sem
problema, tem culto toda semana mesmo”.
5. O culto que agrada a Deus
Nenhum desses extremos
está de acordo com o ensinamento da Palavra de Deus. Como vimos, os cristãos
vivem o já-e-ainda-não, ou seja, já desfrutam de grandiosas bênçãos concedidas
por Cristo, mas ainda não de forma plena, perfeita e eterna.
“Se
o episódio do bezerro de ouro captura a escatologia super-realizada (“Ei-lo
ali!”), e os ministérios da Palavra-e-dos-sacramentos capturam a escatologia do
“já-e-ainda-não” (“Ele não está aqui, mas ressuscitou!”), a cínica geração do
deserto reflete a tendência sub-realizada (“Ele não está aqui, ponto final.”)”[3].
O culto que agrada a Deus
é prestado pela reunião do Seu povo, com o objetivo de adorá-lo pelas
grandiosas bênçãos que Cristo já nos concedeu, que nos permite viver com
alegria, perseverança e esperança de que Ele voltará para nos transformar de
forma definitiva em cristãos glorificados, que viverão em adoração eterna a
Ele.
¹⁸Ora,
não tendes chegado ao fogo palpável e ardente, e à escuridão, e às trevas, e à
tempestade, ¹⁹e ao clangor da trombeta, e ao som de palavras tais, que quantos
o ouviram suplicaram que não se lhes falasse mais, ²⁰pois já não suportavam o
que lhes era ordenado: Até um animal, se tocar o monte, será apedrejado. ²¹Na
verdade, de tal modo era horrível o espetáculo, que Moisés disse: Sinto-me
aterrado e trêmulo! ²²Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus
vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal
assembleia ²³e igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de
todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados, ²⁴e a Jesus, o Mediador da
nova aliança, e ao sangue da aspersão que fala coisas superiores ao que fala o
próprio Abel. Hebreus 12:18-24
A igreja de Cristo já
participa da realidade celestial, mas aguarda sua manifestação plena.
O culto que agrada a Deus
é aquele que nasce da correta compreensão da história da redenção. A igreja não
adora como se já tivesse alcançado a glória final, pois ainda aguarda a volta
de Cristo e a restauração de todas as coisas. Mas também não adora como se
ainda estivesse esperando a chegada da salvação, porque em Cristo ela já
recebeu a graça da nova aliança, o Espírito Santo e a comunhão com Deus.
O culto cristão vive na
tensão santa do “já e ainda não”: celebra a vitória conquistada pelo Cordeiro,
desfruta da presença real de Cristo e aguarda com esperança o dia em que a fé
dará lugar à visão. Por isso, o culto bíblico é reverente, centrado em Cristo,
fundamentado na Palavra, alimentado pelos meios de graça e orientado para a
consumação do Reino de Deus.
⁹mas,
como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em
coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. 1 Coríntios
2:9
O culto cristão é o
encontro de um povo peregrino que já pertence à cidade celestial, mas ainda
caminha em direção à sua manifestação plena. Por isso, o culto não é fuga do
mundo nem tentativa de antecipar o céu, mas alimento para a caminhada entre as
duas eras.
“Não
só a “apresentação das próximas cenas”, mas a verdadeira aurora da nova
criação, ela própria, trazida é que o Espírito que ressuscitou a Cristo dentre
os mortos traz para nós, por intermédio da Palavra e dos sacramentos. Quanta
diferença faria para o nosso culto se as pessoas, simplesmente, não pensassem
estar praticando algo que, afinal, não teria uso na eternidade, mas, sim,
provando as delícias da mesa de uma festa mundial que jamais terá fim”[4].
Soli Deo Gloria.
[1] Michael Horton. Um Caminho Melhor, p. 148.
[2] Ibidem, p. 150.
[3] Michael Horton. Um Caminho Melhor, p. 155.
[4] Michael Horton. Um Caminho Melhor, p. 162.
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