quarta-feira, 29 de julho de 2026

A Palavra de Deus transforma gerações - Salmo 78.1-8


1.    Introdução e contexto histórico

 

Salmo 78

Salmo didático de Asafe

1Escutai, povo meu, a minha lei; prestai ouvidos às palavras da minha boca. 2Abrirei os lábios em parábolas e publicarei enigmas dos tempos antigos. 3O que ouvimos e aprendemos, o que nos contaram nossos pais, 4não o encobriremos a seus filhos; contaremos à vindoura geração os louvores do SENHOR, e o seu poder, e as maravilhas que fez. 5Ele estabeleceu um testemunho em Jacó, e instituiu uma lei em Israel, e ordenou a nossos pais que os transmitissem a seus filhos, 6a fim de que a nova geração os conhecesse, filhos que ainda hão de nascer se levantassem e por sua vez os referissem aos seus descendentes; 7para que pusessem em Deus a sua confiança e não se esquecessem dos feitos de Deus, mas lhe observassem os mandamentos; 8e que não fossem, como seus pais, geração obstinada e rebelde, geração de coração inconstante, e cujo espírito não foi fiel a Deus.

 

No 4º domingo de julho a Igreja Presbiteriana do Brasil comemora o Dia do Adolescente Presbiteriano. Temos que agradecer a Deus pela vida de todos os nossos adolescentes e pedir que continuem sendo abençoados, e que sirvam a Deus com alegria nessa etapa tão bonita da vida.

 

Esse Salmo tem muito a ensinar, tanto aos adolescentes, como para todo o povo de Deus.

 

“Salmo didático de Asafe”. A expressão “Salmo didático” aparece em vários outros Salmos (42, 44, 45, 52-55, 74, 78, 88, 89, 142), e possivelmente aponta para composições com foco em conteúdos de sabedoria e com o objetivo de ensinar ao povo de Israel verdades importantes[1].

 

 Asafe foi um levita, escolhido por Davi para dirigir o canto na Casa do Senhor (1Cr 6.31,39). São também atribuídos a ele os Salmos 73-83[2].

 

31São estes os que Davi constituiu para dirigir o canto na Casa do SENHOR, depois que a arca teve repouso. (...) 39Seu irmão Asafe estava à sua direita; era Asafe filho de Berequias, filho de Simeia; 1Cr 6.31,39

 

O Salmo 78 é um dos mais longos Salmos, e relata os grandes atos de Deus no passado de Israel.

  

v. 9-13: o Êxodo do Egito

v. 14-41: a peregrinação no deserto

v. 42-53: o Êxodo do Egito

v. 54-66: a terra prometida

v. 67-72: a escolha da tribo de Judá e de Davi

 

O salmista mostra que Deus agia com graça e abençoava Israel de formas maravilhosas, mas, pouco depois, o povo se voltava contra Deus com reclamações e insatisfações que demonstravam incredulidade[3].

 

v. 10: não guardaram a aliança de Deus

v. 12: Prodígios fez na presença de seus pais na terra do Egito

v. 17: Mas, ainda assim, prosseguiram em pecar contra ele

v. 21: Ouvindo isto, o Senhor ficou indignado

v. 23: Nada obstante, ordenou às alturas e abriu as portas dos céus

v. 32: Sem embargo disso, continuaram a pecar

v. 34: Quando os fazia morrer, então o buscavam

v. 37: O coração deles não era firme

 

O que motivou Asafe a escrever esse Salmo?

 

Mostrar que cada geração corria o risco de se esquecer de Deus e das suas obras, de se esquecer de quem Deus é e do que Ele faz.


2.    Conhecer a Deus e ensinar as gerações

 

v.1: o salmista chama a atenção do povo de Israel para o que ele vai falar. A mensagem que será anunciada é importante.

 

1Escutai, povo meu, a minha lei; prestai ouvidos às palavras da minha boca.

 

v.2: “Abrirei os lábios em parábolas”: aponta para Mt 13.34-35

 

2Abrirei os lábios em parábolas e publicarei enigmas dos tempos antigos.

 

34Todas estas coisas disse Jesus às multidões por parábolas e sem parábolas nada lhes dizia; 35para que se cumprisse o que foi dito por intermédio do profeta: Abrirei em parábolas a minha boca; publicarei coisas ocultas desde a criação do mundo. Mt 13.34-35

 

A palavra hebraica traduzida por parábolas (mashal) pode significar provérbio, discurso sapiencial ou ensino figurado. Asafe anuncia que interpretará a história de Israel para ensinar verdades espirituais às novas gerações[4].

 

v.3-4: o salmista começa a falar ao povo. O que ele diz?

 

3O que ouvimos e aprendemos, o que nos contaram nossos pais, 4não o encobriremos a seus filhos; contaremos à vindoura geração os louvores do SENHOR, e o seu poder, e as maravilhas que fez.

 

O salmista não apresenta uma história nova ao povo, ou uma recente descoberta que irá impactar suas vidas. O grande anúncio que ele tem a fazer é, na verdade, relembrar ao povo a necessidade de ensinar as gerações futuras tudo aquilo que eles tinham aprendido sobre Deus.

 

“O que ouvimos e aprendemos, o que nos contaram nossos pais, não o encobriremos a seus filhos”: O povo tinha ouvido e aprendido com seus pais, e tinha o dever de ensinar os filhos.

 

“contaremos à vindoura geração os louvores do SENHOR, e o seu poder, e as maravilhas que fez”: O que o povo deveria ensinar a seus filhos? Deveria ensinar quem é Deus, o Deus da aliança, que criou tudo o que há, que prometeu redenção para o seu povo, que chamou um povo para si e fez aliança com esse povo, a fim de serem o seu povo particular.

 

³¹Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. Houve tarde e manhã, o sexto dia. Gênesis 1:31

 

¹⁵Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar. Gênesis 3:15

 

¹Ora, disse o Senhor a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei; ²de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! ³Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra. Gênesis 12:1-3

 

9Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; ¹⁰vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia. 1 Pedro 2:9,10

 

Os pais deveriam ensinar os filhos sobre os louvores do Senhor, o seu poder e as maravilhas que fez.

 

1Disse o Senhor a Moisés: Vai ter com Faraó, porque lhe endureci o coração e o coração de seus oficiais, para que eu faça estes meus sinais no meio deles, 2e para que contes a teus filhos e aos filhos de teus filhos como zombei dos egípcios e quantos prodígios fiz no meio deles, e para que saibais que eu sou o Senhor. Ex 10.2

 

²⁴Guardai, pois, isto por estatuto para vós outros e para vossos filhos, para sempre. ²⁵E, uma vez dentro na terra que o Senhor vos dará, como tem dito, observai este rito. ²⁶Quando vossos filhos vos perguntarem: Que rito é este? ²⁷Respondereis: É o sacrifício da Páscoa ao Senhor, que passou por cima das casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu os egípcios e livrou as nossas casas. Então, o povo se inclinou e adorou. Êxodo 12:24-27

 

⁹Tão somente guarda-te a ti mesmo e guarda bem a tua alma, que te não esqueças daquelas coisas que os teus olhos têm visto, e se não apartem do teu coração todos os dias da tua vida, e as farás saber a teus filhos e aos filhos de teus filhos. Deuteronômio 4:9

 

Hoje temos a revelação especial de Deus consumada nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento. Ela nos mostra o que aconteceu depois do Salmo 78, e nos apresenta o ponto alto de toda a história da redenção: Jesus Cristo, que se fez homem, se humilhou até a morte, por amor, para pagar nossos pecados e para nos dar a nova vida Nele.

 

²⁰logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim. Gálatas 2:20

 

Não vivemos nas sombras, não vivemos na esperança de algo futuro, pois nosso Redentor Vive e Reina hoje e eternamente. Somos seus filhos, somos cidadãos dos céus e caminhamos para a pátria celestial. Devemos contar às gerações futuras a maior e melhor notícia, o Evangelho: Jesus Cristo vive e reina!

 

⁵Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, ⁶pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; ⁷antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, ⁸a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. ⁹Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, ¹⁰para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, ¹¹e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai. Filipenses 2:5-11

 

Aplicação: temos dedicado esse tempo em família, para aprender de Cristo por meio das Escrituras?

 

v.5-6: O salmista relembra ao povo que o próprio Deus estabeleceu sua Palavra como fundamento para Israel, e o próprio Deus ordenou que essa Palavra fosse ensinada de geração em geração.

 

5Ele estabeleceu um testemunho em Jacó, e instituiu uma lei em Israel, e ordenou a nossos pais que os transmitissem a seus filhos, 6a fim de que a nova geração os conhecesse, filhos que ainda hão de nascer se levantassem e por sua vez os referissem aos seus descendentes;

 

¹Estes, pois, são os mandamentos, os estatutos e os juízos que mandou o Senhor, teu Deus, se te ensinassem, para que os cumprisses na terra a que passas para a possuir; ²para que temas ao Senhor, teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos que eu te ordeno, tu, e teu filho, e o filho de teu filho, todos os dias da tua vida; e que teus dias sejam prolongados. ³Ouve, pois, ó Israel, e atenta em os cumprires, para que bem te suceda, e muito te multipliques na terra que mana leite e mel, como te disse o Senhor, Deus de teus pais. ⁴Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. ⁵Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. ⁶Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; ⁷tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. ⁸Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. ⁹E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas. Deuteronômio 6:1-9

 

A grande notícia que o salmista tem para o povo é: ensinem a Palavra de Deus para as novas gerações.

 

O salmista alerta o povo para a necessidade de cada geração ensinar a Palavra do Senhor à próxima geração.

 

De forma semelhante, o apóstolo Paulo insiste para que Timóteo permaneça na Palavra, pois toda a Palavra de Deus é útil para o cristão.

 

¹⁴Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste ¹⁵e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. ¹⁶Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, ¹⁷a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. 2 Timóteo 3:14-17

 

Aplicação: Os adolescentes não são apenas receptores dos ensinamentos dos pais, e não são a “igreja do amanhã”. Os adolescentes presbiteranos são a igreja do hoje, chamados por Deus para aprender, obedecer e transmitir a Palavra a todos quantos estiverem ao redor.

 

Adolescentes, hoje vocês já fazem parte da geração chamada por Deus para conhecê-lo, confiar nele e anunciar suas obras à próxima geração. Vocês têm se dedicado a isso?

 

v.7-8: Qual o objetivo de tanta insistência do salmista nesse assunto? Por que dedicar tanto esforço para chamar a atenção do povo de Israel para a necessidade de ensinar a Palavra de Deus às futuras gerações? Por que esse tema era tão urgente para o salmista?

 

7para que pusessem em Deus a sua confiança e não se esquecessem dos feitos de Deus, mas lhe observassem os mandamentos; 8e que não fossem, como seus pais, geração obstinada e rebelde, geração de coração inconstante, e cujo espírito não foi fiel a Deus.

 

“Para que pusessem em Deus a sua confiança”: estudar a Palavra de Deus para confiar em Deus, para se “agarrar” a Deus, para se refugiar em Deus

 

⁷Uns confiam em carros, outros, em cavalos; nós, porém, nos gloriaremos em o nome do Senhor, nosso Deus. Salmos 20:7

 

5Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apoie em seu próprio entendimento; Provérbios 3:5

 

2Eis que Deus é a minha salvação; confiarei e não temerei, porque o Senhor Deus é a minha força e o meu cântico; ele se tornou a minha salvação. Isaías 12.2

 

Deus usa ordinariamente a Palavra, acompanhada da operação do Espírito Santo, para produzir fé.

 

Aplicação: precisamos pedir a Deus que aumente nossa fé dia a dia. Se pedirmos com sinceridade, Deus fará isso, por meio da Sua Palavra.

 

⁵Então, disseram os apóstolos ao Senhor: Aumenta-nos a fé. Lucas 17:5

 

¹⁷E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo. Romanos 10:17

 

Como dito anteriormente, a partir do versículo 9 o salmista vai contar novamente a história dos feitos de Deus para com o povo de Israel. Infelizmente, essa história é cíclica: Deus abençoava o povo de forma maravilhosa, mas logo o povo se afastava de Deus e era punido pelos seus pecados.

 

Em vários versículos do Salmo 78, o salmista apresenta o motivo do povo ter se afastado de Deus.

 

¹⁰Não guardaram a aliança de Deus, não quiseram andar na sua lei;

²²porque não creram em Deus, nem confiaram na sua salvação.

³²Sem embargo disso, continuaram a pecar e não creram nas suas maravilhas.

³⁷Porque o coração deles não era firme para com ele, nem foram fiéis à sua aliança.

⁴²Não se lembraram do poder dele, nem do dia em que os resgatou do adversário;

⁵⁶Ainda assim, tentaram o Deus Altíssimo, e a ele resistiram, e não lhe guardaram os testemunhos.

 

Sempre que o povo de Israel se esquecia da Palavra de Deus, eles se afastavam do Senhor e pecavam contra Ele.

 

⁶O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos. Oséias 4:6

 

O objetivo da lição da História não é o estudo dos acontecimentos do passado, mas um aprofundamento da fé e da obediência do povo de Deus[5].

 

O salmista apresentou a história do povo de Israel para mostrar que a Palavra de Deus é a fonte para conhecer quem Deus é e o que Ele faz.

 

¹⁰⁵Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos. Salmos 119:105

 

Aplicação: Igreja, Deus confiou a nós a responsabilidade de transmitir às novas gerações o evangelho de Cristo. O discipulado dos adolescentes não pertence apenas às suas famílias, mas é uma responsabilidade compartilhada por toda a comunidade da aliança

 

3.    Conclusão

 

Um dos grandes levitas escolhidos por Deus para ministrar o Seu louvor diariamente no templo escreveu um dos maiores Salmos das Escrituras, com o objetivo de conclamar o povo a se lembrar das obras de Deus, confiar nele e transmitir fielmente sua Palavra às gerações futuras.

 

Devemos aprender com a História do povo de Israel, contada nas Escrituras Sagradas, e devemos nos aproximar cada dia mais da Palavra de Deus.

 

O salmo 78 termina com a história de Deus escolhendo Davi para pastorear o povo de Israel. Sabemos que Davi foi um grande Rei, foi o homem segundo o coração de Deus, mas ainda assim cometeu pecados. Davi não era o redentor, mas apontava para o Grande Redentor que viria: o Senhor Jesus Cristo, que é o caminho, a verdade e a vida.

 

Toda essa história conduz até Cristo.

 

As Escrituras apontam para Jesus, a história das Escrituras é a história da obra de Deus em favor do seu povo. Jesus Cristo é o redentor prometido desde Gênesis, é o Grande Rei que governa hoje, que salva vidas, que chama pecadores para o Reino da sua graça.

 

¹Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. ⁶Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim. João 14:6

 

O maior desejo da Igreja para seus adolescentes não é que tenham sucesso acadêmico, profissional ou financeiro. É que ponham sua esperança em Deus, jamais se esqueçam de suas obras e guardem seus mandamentos.

 

Soli Deo Gloria



[1] Bíblia de Estudo Almeida, pág. 599, rodapé b32.

[2] Bíblia de Estudo Almeida, pág. 610, rodapé b50.

[3] Bíblia de Estudo de Genebra, pág. 745, rodapé Sl 78.

[4] Bíblia de Estudo de Genebra, pág. 745, rodapé Sl 78.2.

[5] Bíblia de Estudo de Genebra, pág. 745, rodapé Sl 78.7.

Vivendo entre duas eras: Como a escatologia molda o culto na igreja


1.    Introdução

 

O presente estudo foi extraído e adaptado do livro “Um Caminho Melhor”, de Michael Horton, capítulo 8, editora Cultura Cristã, 2024, 228 páginas. Disponível para se adquirido em: https://www.editoraculturacrista.com.br/um-caminho-melhor 

 

O objetivo é entender como nossa compreensão sobre escatologia influencia nossa forma de culto. Mas isso não significa pensar apenas nas coisas que ainda acontecerão, mas também nas coisas que já aconteceram e que estão acontecendo agora.

 

Escatologia não é apenas uma doutrina sobre as últimas coisas, mas também sobre a realidade presente do povo de Deus à luz da consumação futura estabelecida em Cristo. O futuro prometido por Deus já começou a acontecer no presente por meio da ressurreição de Cristo e da presença do Espírito Santo.

 

Em síntese: o que cremos e como vivemos molda o culto que prestamos.


2.    Vivendo entre duas eras: “já-e-ainda-não”

 

Para entendermos esse assunto, é necessário entender quem somos e qual é a nossa esperança. O que significa ser cristão? Qual a esperança dos cristãos? Os cristãos esperam pelo quê?

 

¹⁴Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galileia, pregando o evangelho de Deus, ¹⁵dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho. Marcos 1:14,15

 

Ao se encarnar, anunciar e realizar sua obra redentora, especialmente por sua morte, ressurreição, ascensão e envio do Espírito Santo, o Senhor Jesus inaugurou na terra o seu Reino.

 

⁵Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, ⁶pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; ⁷antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, ⁸a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. ⁹Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, ¹⁰para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, ¹¹e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai. Filipenses 2:5-11

 

Jesus Cristo reina hoje, e já nos abençoou de muitas maneiras: fomos justificados (Rm 5.1), somos filhos de Deus (Jo 1.12), recebemos o Espírito (Ef 1.13), pertencemos ao Reino (Cl 1.13), temos vida eterna (Jo 5.24).

 

⁴É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, ⁵e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, ⁶e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia. Hebreus 6:4-6

 

Não cabe entrar na discussão sobre a natureza dessa advertência, pois o foco aqui não é discutir a natureza da apostasia, mas observar que o autor reconhece que existem realidades do mundo vindouro que já são experimentadas no presente.

 

Por outro lado, ainda aguardamos o cumprimento de promessas que se cumprirão na vinda gloriosa do Senhor Jesus: a vitória final sobre todos os inimigos de Cristo (1Co 15.20-26), a glorificação do corpo (Rm 8.23), os novos céus e a nova terra (Ap 21.1), a vida eterna com Cristo (Ap 21.6).

 

“Os crentes já estão assegurados de que pertencem ao mundo vindouro – já e aqui, pois a ressurreição de Cristo é o começo da nossa própria ressurreição. Essa nova vida começa dentro de nós, levantando-nos da morte espiritual e, então, há de nos resgatar da morte física quando formos ressuscitados no último dia. Na ressurreição de Cristo, reconhecemos o primeiro dia do século vindouro, e somos habilitados para discernir a qualidade e o tipo de obras que nos caracterizarão quando a época futura se manifestar plenamente”[1].

(...)

Essa escatologia do “já-e-ainda-não”, portanto, considera o crente, na presente época, como um peregrino sob a cruz, caminhando para a Terra prometida. Antes da conversão, ele era um transgressor em vez de um peregrino, vivendo em estado de pecado. Agora, ele está no estado de graça, aguardando o estado de glória”[2].


3. contraste entre as escatologias

 

A Palavra de Deus nos ensina que os cristãos vivem o “já-e-ainda-não”, ou seja, já participam dos benefícios de serem filhos de Deus e cidadãos do Seu Reino, mas ainda não de forma completa e eterna.

 

Entretanto, muitos cristãos têm abraçado entendimentos equivocados a respeito de quem somos e do que esperamos em Cristo, ou seja, a respeito da escatologia, e esses entendimentos equivocados moldam sua forma de viver e de cultuar a Deus como comunidade.

 

3.1.   Escatologia super-realizada

 

Em uma escatologia super-realizada, o crente considera que todas as promessas feitas por Cristo já foram cumpridas. O crente “antecipa” bênçãos que Deus prometeu na consumação do Seu Reino, ou seja, ele “traz o futuro para o presente” além do que as Escrituras apresentam.

 

O crente que acredita nessa ideia tem o objetivo de experimentar constantemente vitórias em todas as circunstâncias da vida: curas físicas, prosperidade material, sucesso na carreira, experiências sobrenaturais rotineiras. O crente vive “de glória em glória”, de “vitória em vitória”.

 

Esse entendimento é amparado pela compreensão totalmente equivocada de textos bíblicos como esses:

 

¹³O Senhor te porá por cabeça e não por cauda; e só estarás em cima e não debaixo, se obedeceres aos mandamentos do Senhor, teu Deus, que hoje te ordeno, para os guardar e cumprir. Deuteronômio 28:13

 

²⁸Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. (...) ³⁷Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Romanos 8:28,37

 

A missão da igreja passa a ser compreendida como “redimir a cultura” como forma de antecipar a manifestação plena do Reino de Deus

 

3.2.    Escatologia sub-realizada

 

No extremo oposto, em uma escatologia sub-realizada, o crente considera que todas as promessas feitas por Cristo somente serão cumpridas quando da Sua segunda vinda. O crente “prorroga para o céu” bênçãos que Deus já nos deu, ou seja, ele “leva o presente para o futuro” além do que as Escrituras apresentam.

 

O crente que acredita nessa ideia vive apenas “suportando” as adversidades e os desafios desse mundo, na crença de que “no céu será melhor”.

 

É possível identificar traços dessa escatologia equivocada em expressões como “O mundo só vai piorar mesmo”, “O importante é salvar almas para o céu”, “Nossa tarefa é suportar essa vida, pois no céu seremos recompensados”.

 

Esse entendimento é amparado pela compreensão totalmente equivocada de textos bíblicos como esses:

 

³⁶Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui. João 18:36

 

²⁰Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, ²¹o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas. Filipenses 3:20,21

 

O crente vive como se estivesse derrotado, aguardando seu completo escape do presente mundo.

 

 4.    Como essas escatologias moldam nossa forma de culto

 

Até aqui, vimos que existem três formas de compreender quem somos e o que esperamos em Cristo, ou seja, três formas de escatologia: escatologia do “já-e-ainda-não”, escatologia super-realizada e escatologia sub-realizada.

 

Essas três formas de escatologia influenciam diretamente a forma como prestamos nosso culto público a Deus.

 

A escatologia super-realizada tende a produzir uma religião essencialmente visual, fundamentada na intensidade da experiência produzida e sentida por cada crente. Quanto mais as pessoas “sentem” a presença de Deus, melhor é o culto.

 

O culto é preparado como antecipação da consumação do Reino, e os crentes vão ao culto com o objetivo de sentir a presença, o toque de Deus, de forma intensa, como uma experiência da glória consumada. Não existe expectativa pelo cumprimento de promessas futuras, todas as promessas são cumpridas no culto, aqui e agora.

 

O bezerro de ouro (Ex 32.1-10) é um exemplo marcante desse tipo de culto visual e experiencial.

 

Como o objetivo é obter essa experiência intensa com Deus, as músicas são pensadas com o propósito de criar uma atmosfera capaz de produzir a sensação da presença de Deus, como se a intensidade da experiência humana fosse o elemento determinante para a manifestação divina.

 

As letras das músicas focam em experiências pessoais, em vitórias sobre o pecado e em comprovações da fidelidade do crente para com Deus. Em resumo, o foco está no “eu”, e não na glória de Deus.

 

O problema não é a presença da experiência pessoal no culto, pois os próprios Salmos expressam a relação pessoal do crente com Deus. O problema ocorre quando a experiência do adorador se torna o centro da adoração, substituindo a glória de Deus revelada em sua Palavra.

 

A marca dos crentes da escatologia super-realizada é a “conquista”. “Eu preciso ir ao culto para tomar posse das bênçãos que Deus tem para mim”.

 

No outro extremo, a escatologia sub-realizada é uma espiritualidade empobrecida da graça, onde o culto se torna apenas uma rotina requerida por um Deus percebido como distante, que, algum dia, voltará para resgatar o crente desse mundo de horror.

 

O culto se torna um lugar apenas voltado para o cristão aprender lições morais, sobre como suportar as angústias desse mundo, como se comportar bem diante desse mundo ruim, esperando seu resgate final.

 

A participação nos sacramentos pode ser reduzida a um mero memorial de acontecimentos passados, perdendo sua dimensão presente como meios pelos quais Cristo fortalece espiritualmente seu povo.

 

As músicas em um culto de escatologia sub-realizada focam no lamento por viver em um mundo mau, na esperança de escapar desse mundo e ir para o céu, na esperança de um dia sermos recebidos por Cristo.

 

O crente em um culto com escatologia sub-realizada parece indiferente à presença de Deus.

 

A marca dos crentes da escatologia sub-realizada é a “sobrevivência”. “Hoje não fui ao culto, mas, sem problema, tem culto toda semana mesmo”.


5.    O culto que agrada a Deus

 

Nenhum desses extremos está de acordo com o ensinamento da Palavra de Deus. Como vimos, os cristãos vivem o já-e-ainda-não, ou seja, já desfrutam de grandiosas bênçãos concedidas por Cristo, mas ainda não de forma plena, perfeita e eterna.

 

“Se o episódio do bezerro de ouro captura a escatologia super-realizada (“Ei-lo ali!”), e os ministérios da Palavra-e-dos-sacramentos capturam a escatologia do “já-e-ainda-não” (“Ele não está aqui, mas ressuscitou!”), a cínica geração do deserto reflete a tendência sub-realizada (“Ele não está aqui, ponto final.”)”[3].

 

O culto que agrada a Deus é prestado pela reunião do Seu povo, com o objetivo de adorá-lo pelas grandiosas bênçãos que Cristo já nos concedeu, que nos permite viver com alegria, perseverança e esperança de que Ele voltará para nos transformar de forma definitiva em cristãos glorificados, que viverão em adoração eterna a Ele.

 

¹⁸Ora, não tendes chegado ao fogo palpável e ardente, e à escuridão, e às trevas, e à tempestade, ¹⁹e ao clangor da trombeta, e ao som de palavras tais, que quantos o ouviram suplicaram que não se lhes falasse mais, ²⁰pois já não suportavam o que lhes era ordenado: Até um animal, se tocar o monte, será apedrejado. ²¹Na verdade, de tal modo era horrível o espetáculo, que Moisés disse: Sinto-me aterrado e trêmulo! ²²Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembleia ²³e igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados, ²⁴e a Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão que fala coisas superiores ao que fala o próprio Abel. Hebreus 12:18-24

 

A igreja de Cristo já participa da realidade celestial, mas aguarda sua manifestação plena.

 

O culto que agrada a Deus é aquele que nasce da correta compreensão da história da redenção. A igreja não adora como se já tivesse alcançado a glória final, pois ainda aguarda a volta de Cristo e a restauração de todas as coisas. Mas também não adora como se ainda estivesse esperando a chegada da salvação, porque em Cristo ela já recebeu a graça da nova aliança, o Espírito Santo e a comunhão com Deus.

 

O culto cristão vive na tensão santa do “já e ainda não”: celebra a vitória conquistada pelo Cordeiro, desfruta da presença real de Cristo e aguarda com esperança o dia em que a fé dará lugar à visão. Por isso, o culto bíblico é reverente, centrado em Cristo, fundamentado na Palavra, alimentado pelos meios de graça e orientado para a consumação do Reino de Deus.

 

⁹mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. 1 Coríntios 2:9

 

O culto cristão é o encontro de um povo peregrino que já pertence à cidade celestial, mas ainda caminha em direção à sua manifestação plena. Por isso, o culto não é fuga do mundo nem tentativa de antecipar o céu, mas alimento para a caminhada entre as duas eras.

 

“Não só a “apresentação das próximas cenas”, mas a verdadeira aurora da nova criação, ela própria, trazida é que o Espírito que ressuscitou a Cristo dentre os mortos traz para nós, por intermédio da Palavra e dos sacramentos. Quanta diferença faria para o nosso culto se as pessoas, simplesmente, não pensassem estar praticando algo que, afinal, não teria uso na eternidade, mas, sim, provando as delícias da mesa de uma festa mundial que jamais terá fim”[4].

 

Soli Deo Gloria.



[1] Michael Horton. Um Caminho Melhor, p. 148.

[2] Ibidem, p. 150.

[3] Michael Horton. Um Caminho Melhor, p. 155.

[4] Michael Horton. Um Caminho Melhor, p. 162.